RUMO À SANTIDADE

 

1. « Em todos os tempos e em todas as nações foi agradável a Deus aquele que O teme e obra justamente (cfr. At. 10,35). Contudo, aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente »2. No caminho verso a santidade a qual o Senhor nos chama (cf. Mt. 5,48;

Ef. 1,4), Deus quis que nos ajudássemos mutuamente, fazendo-nos

mediadores em Cristo, para aproximar os irmãos ao seu eterno amor.

É nesse horizonte de caridade que se inserem a celebração do sacramento da penitência e a prática da direção espiritual, objetos do

presente documento.

A este propósito, chama-nos a atenção algumas palavras de Bento XVI: « Neste nosso tempo, sem dúvida uma das prioridades pastorais

é formar retamente a consciência dos crentes », e acrescenta o Papa: « Para a formação das consciências contribui também a “ direção espiritual ”. Hoje mais que no passado há necessidade de “ mestres de espírito ” sábios e santos: um importante serviço eclesial, para o qual sem dúvida é necessária uma vitalidade interior que deve ser implorada ao Espírito Santo como dom mediante uma oração intensa e prolongada e uma preparação específica cuidadosamente adquirida.

Depois, cada sacerdote é chamado a administrar a misericórdia divina

no sacramento da penitência, mediante o qual perdoa os pecados em

nome de Cristo e ajuda o penitente a percorrer o caminho exigente da santidade com consciência reta e informada. Para poder realizar este indispensável ministério cada presbítero deve alimentar a própria vida espiritual e preocupar-se por fazer uma atualização teológica e pastoral permanente »3. Nessa linha oferece-se o presente subsídio aos sacerdotes, na qualidade de ministros da misericórdia divina.

Um ano dedicado a recordar a figura do santo Cura d’Ars, no 150°. aniversário da sua morte (1859-2009), deixou uma marca indelével sobretudo na vida e no ministério dos sacerdotes: um « empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo no mundo de hoje »4.

Esta renovação interior dos sacerdotes deve abarcar toda a sua vida e todo o seu ministério, modelando profundamente os seus critérios, as suas motivações e as suas abordagens concretas. A situação atual exige testemunho e pede que a identidade sacerdotal seja vivida na alegria e na esperança.

 

2. O ministério do sacramento da reconciliação, estreitamente ligado ao aconselhamento ou à direção espiritual, tende a recuperar, tanto no ministro como nos fiéis, o « itinerário » espiritual e apostólico, como um retorno pascal ao coração do Pai e à fidelidade ao seu projeto de amor para com « o homem todo e todos os homens »5. Trata-se de iniciar novamente, dentro de si mesmo e no serviço aos outros, o caminho de relação interpessoal com Deus e com os irmãos, como um caminho de contemplação, perfeição, comunhão e missão.

Incentivar a prática do sacramento da penitência em toda a sua vitalidade, como também o serviço do aconselhamento ou direção espiritual, significa viver mais autenticamente a « alegria na esperança » (Rm. 12,12) e, assim, favorecer a estima e o respeito pela vida humana integral, recuperando a família, a orientação dos jovens, o renascimento das vocações, o valor da vivência do sacerdócio e da comunhão eclesial e universal.

3. O ministério da reconciliação em relação com a direção espiritual é uma urgência de amor: « o amor de Cristo nos constrange, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram. Sim, ele morreu por todos, a fi m de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu » (2 Cor. 5,14-15). E isto pressupõe uma particular dedicação, visto que os seguidores de Cristo verdadeiramente « não vivem mais para si mesmos » (ibidem), mas se realizam pela caridade na verdade.

Todo trabalho pastoral do apóstolo Paulo, com suas dificuldades comparadas às « dores de parto », se pode resumir na urgência de « formar Cristo » (Gal. 4,19) em cada um dos fiéis. O seu objetivo era aquele de « tornar todo homem perfeito em Cristo » (Col. 1,28), sem restrições nem limites.

 

4. O ministério da reconciliação e o serviço do aconselhamento ou direção espiritual inserem-se no contexto da chamada universal à santidade como plenitude da vida cristã e « perfeição da caridade »6. A caridade na verdade da identidade sacerdotal deve levar o sacerdote a orientar todos os ofícios de seu ministério rumo à perspectiva da santidade, que é a harmonização da pastoral profética, litúrgica e diaconal 7.

A disponibilidade para orientar todos os batizados rumo à perfeição da caridade é parte integrante do ministério sacerdotal.

 

5. O sacerdote, enquanto servidor do mistério pascal que anuncia, celebra e comunica, é chamado a ser confessor e guia espiritual, como instrumento de Cristo, partindo também da própria experiência.

Ele é ministro do sacramento da reconciliação e servidor da direção espiritual assim como é, ao mesmo tempo, beneficiado por esses  dois instrumentos de santificação pela sua própria renovação espiritual e apostólica.

 

6. O presente subsídio pretende oferecer alguns exemplos simples, factíveis e geradores de esperança, fazendo referência a numerosos documentos eclesiais (citados nos vários pontos) para uma eventual consulta. Não se trata propriamente de uma casuística, mas de um serviço atualizado de esperança e encorajamento. 6. 7.

 

 

2 CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 9.

3 BENTO XVI, Alocução aos participantes do XX Curso para o Foro Interno, organizado pela Penitenciaria Apostólica, 12 de março de 2009.

4 BENTO XVI, Carta para a proclamação de um ano Sacerdotal por ocasião do 150º. Aniversario do “Dies natalis” de São João Maria Vianney, 16 de junho de 2009.

5 PAULO VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de março de 1967), 42: AAS 59 (1967), 278.

6 CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 40.

7 Cfr. JOÃO PAULO II, Carta ap. Novo millenio ineunte (6 de janeiro de 2001), 30: AAS 93 (2001), 287. 


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