I. O MINISTÉRIO DA PENITÊNCIA E DA RECONCILIAÇÃO NA PERSPECTIVA DA SANTIDADE CRISTÃ

 

1. Importância atual, momento de graça

Um convite urgente

 

7. No início do terceiro milênio, João Paulo II afirmara: « Solicito ainda uma renovada coragem pastoral para, na pedagogia quotidiana

das comunidades cristãs, se propor de forma persuasiva e eficaz a prática do sacramento da reconciliação »8. O próprio Papa sucessivamente afirmou que era seu intento « um solícito relançamento do sacramento da reconciliação, inclusive como exigência de autêntica caridade e de verdadeira justiça pastoral » recordando que « cada fiel, com as devidas disposições interiores, tem o direito de receber pessoalmente o dom sacramental »9.

 

8. A Igreja não anuncia apenas a conversão e o perdão, mas é ao mesmo tempo sinal portador de reconciliação com Deus e com os irmãos. A celebração do sacramento da reconciliação insere-se no contexto de toda a vida eclesial, estando sobretudo em relação com o

mistério pascal celebrado na eucaristia, fazendo referência à vivência

do batismo e da confirmação e às exigências do mandamento do amor.

É uma celebração alegre do amor de Deus, que se dá a si mesmo, destruindo o nosso pecado quando o reconhecemos humildemente.

 

A missão de Cristo operante na Igreja

 

9. A missão eclesial é um processo harmônico de anúncio, celebração

e comunicação do perdão, em particular quando se celebra o sacramento da reconciliação que é fruto da Páscoa do Senhor ressuscitado, presente na Igreja: « soprou sobre eles dizendo: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos » (Jo. 20,22-23).

A alegria do perdão torna-se uma atitude de gratidão e generosidade no caminho da santificação e da missão. Quem experimentou o perdão, deseja que os outros possam chegar a este encontro com Cristo Bom Pastor. Por isso, os ministros deste sacramento experimentam eles mesmos este encontro sacramental, tornando-se mais disponíveis a oferecer este serviço humilde, árduo, paciente e alegre.

 

10. A prática concreta, alegre, confiada e dedicada do sacramento

da reconciliação, manifesta em que nível um fiel e uma comunidade foram evangelizados. « A prática da Confissão sacramental, no contexto da comunhão dos santos que concorre de diversas maneiras para aproximar os homens de Cristo, é um ato de fé no mistério da Redenção e da sua atualização na Igreja »10.

No sacramento da penitência, fruto do sangue redentor do Senhor, experimentamos que Cristo « foi entregue por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação » (Rm. 4,25). Por isto, São Paulo podia afirmar que « Cristo reconciliava consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação » (2 Cor. 5,18).

 

11. A reconciliação com Deus é inseparável da reconciliação com os irmãos (cfr. Mt. 5,24-25). Esta reconciliação não é possível sem purificar de algum modo o próprio coração. Mas qualquer reconciliação provém de Deus, porque é ele quem « perdoa toda a culpa » (Sl. 103,3).

Quando recebe o perdão de Deus, o coração humano aprende melhor

a perdoar e a reconciliar se com os irmãos.

 

Abrir-se ao amor e à reconciliação

 

12. Cristo urge a um amor sempre mais fiel e, assim, para uma mudança mais profunda (cfr. Ap. 2,16), a fi m de que a vida cristã tenha os mesmos sentimentos que estiveram em Cristo Jesus (cfr. Fil. 2,5). A celebração, também quando comunitária, do sacramento da penitência, com a confissão pessoal dos pecados, é uma grande ajuda para viver a realidade eclesial da comunhão dos santos.

 

13. Tende-se à « reconciliação » plena segundo o « Pai nosso », as bem-aventuranças e o mandamento do amor. É um caminho de purificação dos pecados e também um itinerário para a identificação com Cristo.

Este caminho penitencial é de extrema importância, hoje e sempre, como fundamento para construir uma sociedade que viva a comunhão.

« Na sua sabedoria, a Igreja sempre propôs que se tivesse em conta o pecado original mesmo na interpretação dos fenômenos sociais e na

construção da sociedade. Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes »11.

 

O testemunho e a dedicação dos pastores

 

14. Em todas as épocas da história eclesial encontram-se figuras sacerdotais que são modelo de confessores ou de diretores espirituais.

A Exortação Apostólica Reconciliatio et Pænitentia (1984) recorda São

João Nepomuceno, São João Maria Vianney, São José Cafasso e São Leopoldo de Castelnuovo. Bento XVI, no discurso à Penitenciaria Apostólica12, acrescentou São Pio de Pietrelcina.

Ao recordar estas figuras sacerdotais, João Paulo II comentava: « desejo igualmente prestar homenagem à inumerável plêiade de confessores santos e quase sempre anônimos, aos quais se ficou devendo a salvação de tantas almas, por eles ajudadas na conversão, na luta contra o pecado e as tentações, no progresso espiritual e, em definitivo, na santificação. Não hesito em afirmar que os grandes Santos canonizados saíram geralmente desses confessionários e, com os Santos, o patrimônio espiritual da Igreja e o próprio florescimento de uma civilização impregnada de espírito cristão! Honra seja, portanto, a este silencioso exército de irmãos nossos, que bem serviram e servem cada dia a causa da reconciliação, mediante o ministério da penitência sacramental »13.

 

15. Atualmente, em muitas Igrejas Particulares, sobretudo nas basílicas menores, nas catedrais, nos santuários e em algumas paróquias mais centrais das grandes cidades, observa-se uma resposta muito positiva por parte dos fiéis ao esforço, realizado por parte dos pastores, de oferecer um serviço assíduo do sacramento do perdão. Se « pelo sacramento da penitência, reconciliam os pecadores com Deus e com a Igreja »14, esta mesma celebração penitencial pode dar espaço para o serviço da direção ou aconselhamento espiritual, para guiar os fiéis cristãos no caminho vocacional, contemplativo, de perfeição e de missão.

 

16. Os munera sacerdotais estão estreitamente ligados entre si, para

o benefício da vida espiritual dos fiéis: « Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra com autoridade, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o batismo, a penitência e a eucaristia, exercitam a sua amável solicitude, até ao dom total de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de Cristo no Espírito »15.

 

17. Neste sentido, a Exortação Apostólica Pastores dabo vobis convida os ministros a fazerem uso desta prática como garantia de sua vida espiritual: « Gostaria de reservar uma palavra especial para

o sacramento da penitência, do qual os sacerdotes são ministros, mas devem ser também benefi ciários, tornando-se testemunhas da misericórdia de Deus pelos pecadores. Retomo quanto escrevi na Exortação Reconciliatio et Pænitentia: “A vida espiritual e pastoral do sacerdote, como a dos seus irmãos leigos e religiosos, depende, na sua qualidade e no seu fervor, da prática pessoal assídua e conscienciosa do sacramento da penitência [...] Num sacerdote que deixasse de se confessar ou se confessasse mal, o seu ser padre e o exercício do seu sacerdócio bem cedo ressentir-se-iam, e disso se daria conta a própria comunidade da qual ele é pastor ” »16. Mas quando tenho a grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, como escrevia Bento XVI, « deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros »17.

 

18. A fecundidade apostólica provém da misericórdia de Deus, por isso, os planos pastorais seriam escassamente eficazes se a prática sacramental da penitência fosse subestimada: « deve ser atribuída a máxima atenção pastoral a este sacramento da Igreja, fonte de reconciliação, paz e alegria para todos nós que necessitamos da misericórdia do Senhor e da cura das feridas do pecado. […] O Bispo não deixará de recordar, a todos aqueles que, em razão do ofício, é requerido o cuidado das almas, o dever de oferecer aos fiéis a oportunidade de se abeirarem da confissão individual. Encarregar-se-á de verificar também que sejam efetivamente dadas aos fiéis as maiores facilidades para poderem confessar-se. Considerado à luz da Tradição e do Magistério da Igreja o laço íntimo que existe entre o sacramento da reconciliação e a participação na eucaristia, sente-se hoje uma necessidade cada vez maior de formar a consciência dos fiéis para participarem digna e frutuosamente no banquete eucarístico, abeirando-se em estado de graça »18.

 

O exemplo do Santo Cura d’Ars

 

19. O exemplo do Santo Cura d’Ars é muito atual. A situação histórica

daquele momento não era fácil, por causa das guerras, da perseguição, das ideias materialistas ou secularistas. Em sua chegada à Paróquia, era bem escassa a frequência ao sacramento da penitência. Nos últimos anos de sua vida, a frequência chegava a ser maciça, inclusive por parte de fiéis findos de outras dioceses. Para o Santo Cura, o ministério da reconciliação foi « um longo martírio » que « produziu frutos muito abundantes e vigorosos ». Diante da condição de pecado, dizia « não se sabe o que se deve fazer: só se pode chorar e rezar ». Mas ele « não vivia senão para os « pobres pecadores » na esperança de vê-los converter-se e chorar »19. A confissão frequente, inclusive quando não se têm pecado grave, é um meio recomendado constantemente pela Igreja com o objetivo de progredir na vida cristã20.

 

20. João Paulo II, na Carta aos Sacerdotes da Quinta-feira Santa de 1986, para comemorar o segundo centenário do nascimento do Santo Cura, reconhecia que « a dedicação incansável ao sacramento da penitência foi, sem dúvida alguma, o que manifestou o carisma principal do Cura d’Ars e o que o tornou justamente famoso. Será bom que este exemplo nos impulsione, nos dias de hoje, a dar novamente ao ministério da reconciliação toda a importância que lhe corresponde ». O próprio fato que um grande número de pessoas « por diversas razões,

parecem privar-se totalmente da confissão, isso é sinal de que se tornou urgente atuar toda uma pastoral do sacramento da reconciliação, levando os cristãos a redescobrirem incessantemente: as exigências de uma verdadeira relação com Deus; o sentido do pecado em que se dá o fechamento ao mesmo Deus e aos outros; a necessidade de converter- se e de receber, mediante a Igreja, o perdão, como dom gratuito do Senhor; e, ainda, as condições que se requerem para celebrar bem o sacramento, superando os preconceitos, os falsos temores e a rotina em relação ao mesmo. A situação, como se apresenta, re quer ao mesmo tempo que fiquemos muito disponíveis para este ministério do perdão, prontos a dedicar-lhe o tempo e atenção necessários e, diria mesmo, a dar-lhe a prioridade em relação a outras atividades. Os fiéis reconhecerão, desta maneira, a importância que nós lhe damos, como sucedia com o Cura d’Ars »21.

 

Ministério de misericórdia

 

21. O ministério da reconciliação, exercitado com grande disponibilidade, contribuirá a aprofundar o significado do amor de Deus, recuperando o sentido do pecado e das imperfeições como obstáculos ao verdadeiro amor. Quando se perde o sentido do pecado, rompe-se o equilíbrio interior no coração e dá-se origem a contradições e conflitos na sociedade humana. Somente a paz de um coração unificado pode dissipar guerras e tensões. « Os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se combatem »22.

 

22. Este serviço de reconciliação, exercido com autenticidade, será um convite a viver em sintonia com os sentimentos do Coração de Cristo. Isto é uma « prioridade » pastoral, enquanto que é viver a caridade do Bom Pastor, viver o « seu amor para com o Pai no Espírito Santo, ao seu amor para com os homens até entregar em imolação a sua própria vida »23. Para retornar ao Deus Amor é necessário o convite ao reconhecimento do próprio pecado, sabendo que « Deus é maior do que nossa consciência » (1 Jo. 3,20). Disto deriva a alegria pascal da conversão, que suscitou santos e missionários em todas as épocas.

 

23. Esta atualidade do sacramento da reconciliação aparece também

na realidade da Igreja peregrina, que « simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação »

 

24. Por isto a Igreja olha para Maria, que « brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrino, até que chegue o dia do Senhor »25.

 

 

8 JOÃO PAULO II, Carta ap. Novo millenio ineunte, 37: o.c., 292.

9 JOÃO PAULO II, Motu Proprio Misericordia Dei, sobre alguns aspectos da celebração

do sacramento da penitência (7 de abril de 2002): AAS 94 (2002), 453.

10 JOÃO PAULO II, Bula Aperite Portas Redemptori (6 de janeiro de 1983), 6: AAS

75 (1983), 96.

11 BENTO XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 34; a Encíclica cita o Catecismo da Igreja Católica, 407.

12 BENTO XVI, Discurso aos Penitenciários das quatro Basílicas Pontifícias Romanas e aos Prelados e Oficiais da Penitenciaria Apostólica (19 de fevereiro de 2007): AAS 99 (2007), 252.

13 JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et pænitentia (2 de dezembro de 1984), 29: AAS 77 (1985) 255-256.

14 CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, 5.

15 JOÃO PAULO II, Exot. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 15: AAS 84 (1992), 680.

16 Ibid., 26: o.c. 699; cita a Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et pænitentia n. 31.

17 BENTO XVI, Carta aos Seminaristas, 18 de outubro de 2010, 3.

18 JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores Gregis (16 de outubro de 2003), 39: AAS 96 (2004), 876-877.

19 BEATO JOÃO XXIII, Carta enc. Sacerdotii nostri primordia, 29: AAS 51 (1959), 573-574.

20 Cfr. Ibid. 95, o.c., 574-575.

21 JOÃO PAULO II, Carta aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 1986, 7: AAS 78 (1986), 695.

22 CONC. ECUM. VAT. II, Cost. past. Gaudium et spes, 10.

23 JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 49: o.c., 745.

24 CONC. ECUM. VAT. II, Const. dogm. Lumen gentium, 8.

25 Ibid., 68.


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